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Entrevista - Cátia Ferreira

Com 26 anos de envolvimento no clube, Cátia Ferreira é uma das principais figuras do passado, presente e futuro do clube.

No Juventude Vidigalense (JV) desde 1995, Cátia Ferreira iniciou o seu percurso no clube enquanto atleta, mas ao longo dos anos desempenhou várias funções, entre elas as de contabilista e motorista de autocarro. Atualmente, a ex-atleta é funcionária e treinadora, mas igualmente uma das principais imagens do clube, não só pelo seu passado enquanto atleta internacional, mas também pelo contributo que tem dado no crescimento do clube, dentro e fora das pistas. Treinadora dos Campeões de Portugal em Pista Coberta de salto em comprimento em ambos os géneros, e já com bilhete para os Jogos Olímpicos de Tóquio, Cátia Ferreira partilha um pouco da sua história e deixa uma mensagem aos mais jovens.

 

1 – Como começou a tua paixão pelo atletismo?

A paixão não surgiu de imediato e foi crescendo à medida do sucesso na competição. Aos 12 anos de idade, quando andava no CCMI, resolvi deixar o andebol por falta de motivação, mas a minha mãe insistiu para que continuasse a prática desportiva noutra modalidade. Foi aí que o Paulo Reis, que era meu professor de educação física, me convidou para praticar atletismo pois reconhecia em mim capacidades físicas acima da média. No início não gostava nada de treinar e recordo-me que, nas provas de velocidade ou de resistência, até cortava a meta de mãos dadas com uma amiga pois não era nada competitiva. Eu apenas ia ao treino se a minha mãe estivesse na bancada a assistir, mas ela não faltou a nenhum. Fui sentindo que ganhar era bom e passei a adorar a competição. Para competir bem percebi que tinha de treinar e assim ganhei o gosto pelo treino.

 

2 – O que proporcionou a tua transição de carreira de atleta para uma mais vincada no treino e na colaboração com a estrutura?

Embora tenha tido algum sucesso/potencial enquanto treinei, em Leiria, com o Paulo [Reis], quando decidi ingressar no ensino superior optei por estudar em Lisboa para conciliar com uma aposta mais séria na modalidade. Estava num grupo de treino com os melhores atletas nacionais, mas, infelizmente, os resultados estagnaram. Mesmo quando regressei para Leiria andei vários anos a treinar quase sozinha (pois não havia uma estrutura técnica) e percebi que dificilmente iria conquistar mais do que já tinha alcançado até ali, enquanto atleta.  Foi aí decidi que podia ter outro papel na modalidade, pela qual sou muito grata por me ter tornado naquilo que sou hoje, e dediquei-me a ser treinadora. Poder transmitir aos outros tudo o que absorvi enquanto atleta e sentir que podemos contribuir para o seu desenvolvimento enquanto pessoas e atletas preenche-me bastante.

 

3 – Certamente já te passaram pelas mãos atletas com excelentes capacidades, que fatores achas determinantes para uns conseguirem vencer e outros não atingirem o potencial que lhes era reconhecido em certa altura?

São diversos os fatores, sendo que o principal é que sou uma treinadora em crescimento e formação constante. As condições que o clube foi conquistando são muito diferentes das de há 10 anos atrás. E depois há todo o contexto pessoal e familiar do atleta que pode condicionar muita coisa.

Quando percebemos que existem atletas com potencial, capacidade de trabalho, um bom contexto familiar e que têm as condições para evoluir, passam a ser uma prioridade na nossa estrutura. Quando só existe talento, mas não há capacidade e vontade de trabalho e não os conseguimos motivar, então não podemos fazer muito.

 

4 – Ao longo dos anos, o JV revela-se um projeto desportivo de sucesso, que fatores achas importantes para que isto se proporcionasse?

Um enorme líder que foi o Paulo Reis.  Conseguiu reunir e motivar uma grande família de atletas, familiares e diretores a remar com muita paixão para um objetivo comum.

 

5 – Qual o momento mais marcante na tua carreira enquanto treinadora? E enquanto atleta?

São vários os momentos que nos marcam. Reconheço que as lesões são sempre momentos que marcam e alteram a minha carreira enquanto treinadora, pois são uma lição para mim e que procuro sempre que constituam uma aprendizagem por forma a evitar cometer o mesmo erro. E embora todo o processo de treino do atleta seja a melhor partilha que podemos ter, existe um momento que me marcou especialmente que foi assistir do sofá de minha casa à qualificação da Evelise [Veiga] para a final do salto em comprimento, no Campeonato da Europa em Berlim. Embora com distância física, senti que fazia parte daquele resultado fantástico com um sensação plena de missão cumprida e com o trabalho bem feito.

Enquanto atleta os momentos que mais me marcaram, foram, sem dúvida, a alegria da minha mãe na bancada e do meu pai (que me ia ver às escondidas), quando eu chegava a casa. Desportivamente, o Festival Olímpico da Juventude Europeia, na Dinamarca, e os Jogos da Lusofonia, em Macau, foram as experiências que mais me enriqueceram.

 

6 – Viste recentemente dois atletas teus (André Pimenta e Evelise Veiga) serem Campeões de Portugal no salto em comprimento, estavas à espera deste resultado?

São dois atletas em fases diferentes da carreira. Quanto à Evelise, este era um dos vários objetivos para a época e sem dúvida que trabalhámos para isso. Quanto ao André, é um atleta ainda em “construção” e este resultado foi apenas uma consequência de uma aposta mais séria na modalidade, no início deste ano, e do crescimento dele enquanto atleta, dentro e fora das pistas, que permitiu um trabalho de maior qualidade e que resultou num inesperado título tão cedo.

 

7 – Como ex-atleta internacional e olhando para a nova geração de atletas, que diferenças vês entre as diferentes gerações?

Em termos de condições de treino e de competição não se compara. Na minha altura competíamos no inverno à chuva sob trovoada, não havia massagem, fisioterapia, ginásios apetrechados, material de apoio ao treino. Os grupos de treino eram numerosos e de várias especialidades. Esta geração agora tem muito melhores condições, mas sinto que têm muita pressa para obter resultados de forma fácil e que se focam mais no resultado em vez de valorizarem o processo.

 

8 – Que conselhos dás aos jovens atletas do clube que ambicionam chegar aos maiores palcos do atletismo?

Para aqueles que efetivamente têm um foco e um objetivo, nunca esquecer que o talento e estar presente nos treinos todos não chega. Devemos primeiro criar um contexto familiar, pessoal e escolar estável que permita que haja um foco no atletismo. Quando as coisas não correm bem em casa ou na escola, dificilmente conseguimos ir concentrados para o treino ou com energias positivas. Depois é muito importante confiar no treinador e no processo de treino. Quando se acredita no plano a sua motivação para o realizar é muito maior. E nunca esquecer que ser atleta não é só na hora do treino. A recuperação, o descanso e a alimentação influenciam bastante a qualidade do treino.

E termino com a frase que o meu treinador mais me dizia: “Só no dicionário é que o sucesso vem antes do trabalho”.



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